Já era tarde da noite, o sono havia esvaido em meio a tosse e as lembranças daquele nosso fim de tarde. Eu me distraia com algumas equações, reações químicas, formulas, teoremas e regras enquanto lembrava dos teus belos olhos castanhos, da tua cor pálida e dos teus cabelos loiros. Ao som de algumas obras clássicas eu lembrava seu aroma, seu perfume amadeirado com notas de âmbar invadia meu laboratório assim como a vontade de te ter em meus braços crescia descontroladamente. O tempo passou rápido como uma prostituta e trouxe os primeiros raios de luz com ele, mas minha mente fervia em busca de uma maneira sórdida de possuir você... Dormi o dia inteiro, acordei no fim da tarde, sai para comprar alguns ácidos que haviam acabado e algum café para me entreter pela noite. A tosse ainda me acompanhava, sete dias de amoxicilina não haviam me curado e pensar em você me deixava mais doente. Hoje, hoje seria o dia ! O dia em que abriria você da cabeça aos pés com todos os meus instrumentos cirúrgicos, derreteria cada osso seu na banheira ácida de cor sombria, comeria cada pedaço da sua carne como um andarilho desesperado por comida. Eu teria você em meus braços mais uma vez antes de começar a descobrir o que ha dentro de você. Seria um doce sacrifico, te levaria até minha cama e lá teria você como veio ao mundo somente para mim e no final você olharia em meus olhos verdes e diria o quanto me ama, o quanto confia em mim, choraria em meus braços e diria que me ama mais uma vez. Eu correria minhas mãos por teu corpo quente, beijaria tua face e entregaria mais um cálice de vinho, teu ultimo vinho e você dormiria profundamente. Acordaria deitada a uma mesa de cirurgia com os pés e mão presos por cintos, mas sem conseguir distinguir minha voz da dor de cabeça. Litio já não resolvia um terço das minhas mágoas e lembrar do passado me deprimia cada vez mais, então eu precisava de uma distração e hoje essa distração seria você ! Eu faria tudo que já disse, mas guardaria teus olhos, pois eles transbordam paz, transmitem paz e possuem um castanho dourado incomum. Acho que amei você, talvez mais que o normal, talvez mais que mil vezes, talvez um milhão de vezes. Por um milhão de vezes havia matado outras mulheres, outros homens e outros monstros como eu, mas hoje... mas essa noite eu não consegui reconstituir esse ato mais uma vez, não consegui matar você! Quando deitou se em minha cama troquei os cálices, não bebi o meu e quando você disse pela milionésima vez que me amava apenas te abracei e pela primeira vez disse um sincero " eu te amo". Culpo tua pele branca como a neve e teus olhos brilhantes como ouro pelo meu suicídio, essa noite.
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